ARTIGOS

SAÚDE COMEÇA PELA BOCA... SORRIA!

Dra. Célia Regina Lulo Galitesi (*)

Visão da Odontologia Integral Antroposófica

Desde os primórdios da humanidade, dentes e arcadas dentárias servem de parâmetro para observações e pesquisas para determinar espécies animais, gênero humano, tipos raciais, civilizações perdidas, achados arqueológicos e hábitos alimentares, por serem as estruturas mais perenes do ser humano – um verdadeiro patrimônio ‘bio-histórico’. Dentre outras, a Pedagogia Waldorf utiliza a erupção do 1º molar permanente como marco indicativo de aptidão para alfabetização, para o pensar cognitivo.

Que significado existe por trás disso tudo? E o que são os dentes? Os dentes são os ‘guardiões’ da boca, que é um grande ‘portal’ de trocas com o mundo!

A ´leitura´ do paciente por meio da diagnose dentária integral compreende, trata e relaciona cada sistema, levando em conta o homem desde sua natureza cósmica até seu mundo orgânico mais denso e mineralizado – isto é, até os dentes.

Nós iniciamos nossa vida intra uterina como uma ‘grande oralidade’ (estomodeo); já a finalização de nossa formação física culmina com a erupção do dente do siso (em torno dos 18 anos), a qual ocorre após a maturação do sistema sexual. Assim, a boca, por sua importância e primitividade anatômica e fisiológica, ‘arquiva’ com maior abrangência informações de origens psicológicas, físicas, sociais e outras.

Tomar o homem pela imagem do dente significa estudar simultaneamente cosmogênese, embriogênese e odontogênese, com bases nas forças arquetípicas presentes e comuns nesse processo.

Profissionais da Saúde não querem mais nutrir-se de relações fragmentadas, distantes da possibilidade de cura. Juntos, o paciente e o curador criam possibilidades terapêuticas para a manutenção da saúde bucal, que reflete benefícios gerais.

‘No dente humano, o Espírito do Homem atinge sua maior camuflagem, numa performance mineral.’ (CRLG)

Nós vemos cada paciente como um ser que traz um caminho evolutivo, que passa pela formação harmônica do pensamento, do sentimento e da vontade; estes podem ser harmonizados, sob os cuidados de um cirurgião dentista, por meio de um tratamento odontológico integral antroposófico, tomando-se o dente como parte integrante de um organismo inteiro e de um sistema maior. Por exemplo, cáries, más posições dentárias, alterações na fixação geral dos dentes, problemas ósseos, periodontais, gengivais, são remissões e/ou resoluções das organizações sutis do nosso ser, constituindo por vezes ‘pistas’ indicativas da atuação do nosso Eu, e também situações extremas de ‘penhora’, em diferentes graus e instâncias do nosso ser. Isto porque a erupção dos dentes é o processo mais intenso de permeação do Eu no corpo físico; sua apoteose acontece no esmalte dental – órgão mais mineral do corpo humano –, nossa ‘pedra orgânica’. É justamente neste paradoxo, entre o extremo espiritual e o mais mineral no físico, que se esconde esse processo extraordinariamente relacionado à consciência, que polariza o aprisionamento e a liberdade do homem, vinculado ao seu desenvolvimento e evolução. Este assunto amplia sua dimensão quando se refere ao flúor.

Conhecer tais conceitos é fundamental para se compreender a diferença entre o tratamento convencional, o tratamento pautado pela prevenção e o tratamento focado no paradigma salutogênico – e então ver sentido e valor nas indicações de apoio ao tratamento odontológico, tais como arteterapia, medicamentos dinamizados, euritmia, ludoterapia, dentre outras, que levam a compreender o seguinte fato: quanto mais sutis e naturais os procedimentos, maior a abrangência de sua atuação sobre o ser; eles também levam a compreender a identidade, o diferencial e os fundamentos desta linha de trabalho.

Dentre as boas influências sutis, destaco o ato da amamentação – que, além da nutrição física, é um primeiro ato de vontade, vinculado à harmonia futura da relação maxilo-mandibular.

Em relação aos dentes e cáries, o tipo de alimentos que a criança recebe influi sobre a imunidade dos dentes. Os alimentos não orgânicos contendo agrotóxicos e hormônios, bem como os refinados, resultam em alimentos desvitalizados, nem de longe ideal para quem está formando dentição.

Neste sentido, ritmos alterados de sono e de trabalho, e o excesso de estímulos sensoriais mal conduzidos na primeira infância, consomem cedo demais uma parte da energia vital que deveria estar sendo empregada na consolidação dos dentes e na imunidade geral da criança... que, se precocemente intelectualizada ou tendo muito cedo uma relação com máquinas lógicas e vendo muita tevê, pode apresentar tendência ao estreitamento das arcadas e dentes mais frágeis.

Como já dizia Rudolf  Steiner, "as forças utilizadas para pensar são as mesmas que formam e fortalecem os dentes”.

Tendo em vista a complexidade destes fatores, atuar clinicamente protegendo o ser humano com procedimentos clínicos exclusivamente do mundo externo para o interno, fluoretando-o, selando-o, endurecendo-o, supervitaminando-o, impermeabilizando-o (como se devêssemos torná-lo impermeável a tudo, como no filme do homem que vivia na bolha), relativiza o conceito de prevenção!

Nossa proposta terapêutica é salutogênica, não se limitando a eliminar os sintomas locais...  Vemos o dente relacionado à imagem integral do homem; utilizamos orientações e medicamentos naturais, ampliando assim a possibilidade de cura e a manutenção da saúde. Embora no campo da odontologia impere a dureza das forças mecânicas e das substâncias minerais, a proposta salutogênica indica que não é tão seguro dar forças ao homem quanto fazer com que se desenvolvam as que já existem nele.

Assim, a utilização de medicamentos, cosméticos (cremes dentais) e colutórios embasados em conceitos antigos e bem estabelecidos – como o flúor e outros elementos aplicados em massa –, na prevenção de cáries e ou de outras patologias, precisa ser revista, repensada e retratada, não só sob uma ‘visão ampliada´, mas também sob uma visão aprofundada... tomando-se o ser humano integral-mente, sob no mínimo ´mil e um pontos de vista´.

Tão importante quanto a boa nutrição, a boa higiene, a boa escovação e a adequada fluoretação, para a imunidade dental e geral, é não cultivar o hábito de aderir passivamente aos estímulos sem qualidade – mesmo que ‘bem estabelecidos’ pela mídia e pelo mundo em geral; este tipo de ‘praticidade’, da qual usufruímos devido ao acúmulo de tarefas cotidianas, é que enfraquece nossa força de vontade, nossa imunidade e identidade, porque por nossa omissão nós cultuamos o padrão externo instaurado, e assim compactuamos com algo com que não nos identificamos.

Importante, ainda, é lançar luz sobre a forma e a finalidade para a qual nosso organismo assimila, digere e processa tudo o que extrai do mundo, lembrando que todo trabalho é sagrado. Enfatizo aqui a relação de trocas, porque ‘humanidade’, ‘imunidade’ e ‘identidade’ não são apenas palavras similares; são questões intrinsecamente ligadas e, por sua vez, relacionadas ao curador interior de cada um, pois o mal não está apenas no que entra pela boca – o mal é também o que sai por ela. Boca... nosso limiar, que retribui de forma humanizada o que pensa, o que sente; um portal que expressa a fala, a dor, a raiva, o riso, o amor.


* Célia Regina Lulo Galitesi é cirurgiã-dentista, especialista em ortopedia funcional de maxilares e autora de livros.

Contato: lulogalitesi@uol.com.br.

 
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